Joker ou as quatro lições

Last updated on 1 de July, 2020

Fui, finalmente, ver o “Joker”, o filme que incendeia as discussões publicas do momento e que, alegadamente, trás para as redes sociais a discussão sobre a doença mental. Como qualquer outra discussão da moda, este tema já arrancou publicações complacentes e caridosas de alegados e efetivos portadores de doenças do foro psiquiátrico que se mostram profundamente solidários com as vítimas de doenças mentais. Ora eu adoraria mostrar a mesma condescendência. Porém, até hoje, nunca me foi diagnosticada qualquer patologia do foro psiquiátrico, aliás, raras vezes me foi diagnosticada qualquer doença. Felizmente sou muito saudável e, até ver, aguento tudo. Admito, contudo, que este tema me afeta, em particular, por me ser próximo. Na verdade, só ontem fui ver o Joker porque todos os dias tenho ido a um Hospital Psiquiátrico, em visita e ainda não tinha tido possibilidade de ir ao cinema, desde que o filme estreou. Não gostei, nem deixei de gostar. Muito mais do que versar sobre a doença mental, penso que o filme metaforiza a ascensão ao poder de um esquizofrénico, a glorificação e a idolatria por um individuo com distúrbios mentais. O retrato, de resto, do atual enquadramento político, em que lideres improváveis fazem as preferências de um eleitorado exausto de corrupção, xenofobia, preconceito, sacrifício que vota em candidatos “outsider”, do contra, em busca de mudanças, e as transformações sociais.

Qualquer semelhança entre o filme e o Hospital Psiquiátrico que tenho visitado, só mesmo a bondade e a resistência de alguns profissionais num sistema que enclausura os doentes psiquiátricos e não os trata, não cura, não recupera, dedicando-se essencialmente a mantê-los asseados e alimentados.

Quando lá vou (e não está a chover) é frequente ouvir alguns pacientes gritarem atrás da vedação, para mim e outros visitantes “malucos”! E eu penso: temos filhos que entregamos aos funcionários de infantários para criar, de Segunda a Sexta, para podermos trabalhar 11 e 12 horas por dia e ganharmos dinheiro para pagar os infantários e as outras atividades em que os enfiamos; temos filhos que aos fins-de-semana entregamos aos avós para criar para podermos viajar e descansar das semanas extenuantes de trabalho ou para fazer provas de corrida, triatlo, escalada, btt ou qualquer outra que propicie boas fotografias conquistadoras de profundos elogios, nas redes sociais; queixamos das intempéries (nos meses tipicamente de chuva) mas, quando está sol, torramos horas em filas para shoppings, garantimos aos nossos amigos que podem contar connosco sempre que precisarem mas, quando nos ligam, estamos sempre muitíssimos ocupados com alguma tarefa inadiável; terminamos casamentos com ano e meio porque o relacionamento se torna monótono e previsível mas ficamos revoltadissimos se a nossa entidade patronal não renova o contrato ao fim de dois e concluo: “E não é que tens razão? Nós é que somos os malucos”.

Contudo, como não tenho nem autoridade nem conhecimento suficiente para fazer juízos de valor, somente pretendo partilhar quatro lições que tenho tentado aprender com as pessoas que conheço que sobrem de patologias do foro psiquiátrico:

1.º Não guardar rancor. Penso que nunca fui rancorosa mas admito que tenho muita dificuldade em aceitar determinadas escolhas que fiz (mais concretamente que não fiz) e tenho procurado motivos e culpados para os quais atirar a responsabilidade dessas tomadas de decisão. E é bárbaro assumir que a única culpada sou (ou fui) eu. Quem me conhece sabe que sou (ou era) impulsiva, impetuosa, precipitada. Ainda hoje, admito, tenho momentos de cólera, sobretudo no transito (deem-me tempo). Mas o convívio com a pessoa que tenho visitado tem-me tornado mais tolerante, prudente, paciente, comedida.

Conviver com alguém que sofre deste tipo de patologia é como viver no fio da navalha. A pessoa pode estar perfeitamente calma e, no minuto a seguir, sucumbir a um profundo estado de angústia e aflição, ou a uma explosão de ansiedade. Esta inconstância obriga-nos a pesar as palavras, a refletir antes de atuar. E a ponderar sobre as nossas escolhas.

E hoje, dou por mim, menos temperamental e muito mais segura das minhas escolhas.

2.º Viver com calma. A cultura do eu em que crescemos, faz-nos sentir seres de direitos. Não temos obrigações. Só direitos e direito a tudo. Queremos tudo e queremos já. Não temos paciência, não sabemos esperar e raramente estamos satisfeitos. Não convivemos com os nossos pais e avós porque não sabem a diferença entre um i-Phone e um android e não têm mbway e nós não temos tempo a perder com explicações porque o nosso tempo é precioso e já nascemos ensinados. Depois morrem e compreendemos que nos fazem muito mais falta do que nós a eles. Queremos salários dignos que nos permitam férias em lugares paradisíacos  e colégios para os filhos e equipamento para irmos para a neve amontoar fotografias para exigir aos colegas de trabalho. Mas tem que ser trabalho por conta de outrem que isso de criar emprego implica muita responsabilidade e tem que ser já. Ou ascendemos a lugares de chefia em seis meses ou vamos procurar ofertas na concorrência. Não queremos assumir compromissos nem responsabilidades porque precisamos de tempo para nós e, por esse motivo, Segunda vamos ao ginásio, Terça vamos correr, Quarta é o dia de ir ao cinema, Quinta vamos ao pilates, Sexta vamos correr outra vez, Sábado vamos sair e Domingo temos alguma atividade de qualquer coisa e, de repente, somos escravos de compromissos.

Ora, quem sofre de doenças psiquiátricas não pode ter agenda.

Perdoem-me amigos, se vos convido para jantar ou para ir à praia uma hora antes de sair de casa. Eu sei que todos vocês têm agendas sobrecarregadas e programadas com antecedência. Eu também era assim ou também seria assim. Mas não posso. Porque tudo pode estar tudo bem ao almoço e o jantar ser um tumulto. Por isso habituei-me a viver com calma. Uma hora de cada vez. Um minuto de cada vez e, desta necessidade, resultou uma das minhas maiores conquistas: conseguir manter o foco e a calma, em contexto de imprevisto.

3.º Ser tolerante. Nos Hospitais Psiquiátricos encontramos todo o tipo de pessoas. De resto, como em qualquer lugar. A diferença é que ali, as pessoas são o que são. Sem subterfúgios. E como não podemos saber se um dia vamos ser nós atrás daquelas grades ou naquela cama de hospital, habituamo-nos a conviver com as mais diversas formas de ser e a não fazer juízos de valor nem fabricar etiquetas. Afinal, tantas vezes, os malucos somos nós.

4.º Aceitar-nos. Vivemos tão preocupados com o que outros pensam de nós. Com a imagem que transmitimos. Pois muitas das pessoas que acabam internadas em Hospitais Psiquiátricos são pessoas humanas, inteligentes, sagazes, combativas, trabalhadoras, generosas, criativas que tinham tudo para se enquadrar num qualquer estereótipo de pessoa bem-sucedida, mas que nunca se sentiram suficientemente boas, suficientemente à altura das expectativas. Não das suas, mas das dos outros. E neste aspeto, admito, tenho muito para melhorar. Duas das frases mais marcantes do filme são “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse.” e Durante toda minha vida, eu nem sabia se eu realmente existia. Mas eu existo. E as pessoas estão a começar a perceber.” Ora eu existo, tal como sou e tenho a obrigação e a vontade de ser melhor. Porém, para já, por favor não esperem que me comporte de forma diferente.  Bom Domingo!

Ana

3 Comments

  1. Dulce Neves
    21 de October, 2019

    Leio em ti os meus pensamentos. Vejo nas tuas palavras l mundo em que vivemos. Obrigada pela partilha Ana. Cada vez mais temos de ser mais Eu ❤️🍀😘

  2. 23 de October, 2019

    @DulceNeves, mais nós, mais tempo para os nossos, mais tolerância para todos :-*

  3. Andre Santos
    26 de March, 2020

    Muitos dos “problemas” que sentimos hoje são originados nas malditas redes sociais. A partilha do sucesso e felicidade “instantânea” faz com que nos preocupemos cada vez mais com o que mostramos e não com o que sentimos e vivemos.
    Muitas vezes, os momentos são perdidos, porque as pessoas estão mais preocupadas em captar o momento do que vive-lo.
    Esquecemos-nos de viver e saborear os momentos para passar a “esfregá-los” na cara dos outros.
    Estamos juntos Ana…Há que viver e sentir mais e assim conseguir ser Feliz. A Felicidade não vive na internet mas sim dentro de nós.
    Até um dia destes 🙂

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