Sem rede: Aldeia do Pontido

No dia mundial da internet fomos para onde a rede chega com vagar, onde o tempo passa ao ritmo de quedas de água e a única urgência é a de respirar o aroma a eucaliptos, e escutar as folhas de choupos e amieiros estalar por baixo dos pés: a “Aldeia do Pontido”.

Fomos para a Pontido Village, em Queimadela, Fafe. Chegamos na Sexta-Feira pela hora do jantar, ainda a tempo de subir ao “Outeiro do Lobo” e observar umas pinceladas de rosa sob o horizonte acinzentado que acomoda a “Barragem da Queimadela” e o esplendor verde que a circunda, polvilhado de aglomerados de granito.

Jantamos na casa que havíamos reservado, a mais pequena, mesmo por cima de uma queda de água, cujo som da corrida pelas lajes fora, nos embalou como anjos, toda a noite. Tomámos o pequeno almoço no restaurante da aldeia, delicioso, sob uma mesa imaculada e impecavelmente posta, junto à porta de entrada que nos deixava observar a Ester, sentada e curiosa.

Percursos

Sem rede móvel para descarregar os percursos que pretendíamos fazer, fomos à aventura até conseguir entrar na etapa 3 da GR 14.  A GR 14 tem uma extensão de 50 km, em circuito, dividida em três etapas: “etapa 1 Várzea Cova – Mós” com 16 Km, “etapa 2 Mós-Pontido”, com 17 Km e etapa 3 “Pontido – Várzea Cova”, com 17 Km. De ressalvar que é uma rota que partilha, em cerca de metade do trajeto, os trilhos de vários PRs do concelho de Fafe, o que exige uma atenção redobrada mas também um leque significativo de opções de caminho, tentadoras para um aventureiro como o Paulo e uma falsa destemida como eu.

Com efeito, seguimos atentos, em silêncio, quase sem trocar uma única palavra, não por estar arreliados ou por receio de nos desviarmos do caminho, mas mais por nos termos desabituado de conviver. Passamos a maior parte das horas do dia a trabalhar, chegamos a casa e continuamos sentados em frente dos nossos portáteis e tablets, ou dos nossos telefones com rede, cumprimos rituais de tarefas domésticas, devolvemos chamadas aos amigos, lemos 10  ou 11 páginas de um livro ou do Noticias Magazine de Sexta e não dialogamos, não convivemos, não estamos nem um com o outro nem com nós próprios.

Dizemos que precisamos de abrandar mas, de repente, o casamento chega ao fim, os filhos saem de casa, o nosso contrato de trabalho é incluído num lote de despedimentos coletivos, os nossos pais morrem sem sequer nos termos apercebido de que estavam doentes e perguntamos: “Como é possível a minha vida ter chegado a este ponto”?

Dizemos que precisamos de abrandar mas, de repente, o casamento chega ao fim, os filhos saem de casa, o nosso contrato de trabalho é incluído num lote de despedimentos coletivos, os nossos pais morrem sem sequer nos termos apercebido de que estavam doentes e perguntamos: “Como é possível a minha vida ter chegado a este ponto”? É possível porque não abrandamos, porque vivemos escravos de contas por pagar e de convívios e eventos para partilhar nas redes sociais. E ali estávamos nós, sem rede, sem poder fazer ou receber uma chamada de algum amigo que pusesse termo ao silêncio incómodo só quebrado pelo cantar dos pássaros e da passagem das correntes de água translucida.

Recuperamos alguns dos trilhos que percorremos no Fafe Trail Run (https://myrun.pt/2019/03/03/antes-que-chovesse/), revisitamos as mesmas povoações, os amontoados de ruinas graníticas anteriores lares de famílias numerosas, quem sabe solares e palacetes. Corremos à sombra de grandes vastidões de eucaliptos e densos carvalhais, passamos por velhos moínhos de água, pisões, espigueiros e ruínas. Atravessamos riachos e levadas e escalamos lajes forradas de musgo.

Terminamos na Barragem de Queimadela onde fizemos crioterapia natural, nas águas geladas e tranquilas, descansamos e pusemos termo ao silêncio que nos acompanhava, agora invadido pelas vozes dos merendeiros

Mais ao fim da tarde, assistimos à última jornada do campeonato português de futebol no bar da aldeia, cujo resultado agradou a um único dos hospedes, todos eles amáveis e bem-dispostos, tal como todos os funcionários do alojamento. Jantamos no piso de cima, no restaurante da “Pontido Village“, uma estrutura granítica mas acolhedora, com pratos tradicionais muito bem confecionados e uma boa carta de vinhos. De referir que a “Pontido Village” tem somente 8 casas, turísticas, de diferentes dimensões, pelo que o bar e o restaurante ficam somente a duas ou três portas de distância de qualquer dos alojamentos.

Domingo

Domingo acordou solarengo e, após mais um delicioso pequeno almoço no restaurante da aldeia, fomos fazer uma caminhada. A partir da “Pontido Village“, é possível percorrer um PR de cerca de 3 Km ao redor da Barragem de Queimadela, pelo “Trilho Verde da Marginal”. E a partir da barragem é possível escolher pelo menos três trilhos: o “PR1 Rota do Maroiço”, o “PR4 Trilho Verde da Marginal” e o “PR11 Trilho dos Apanha Pedrinhas”. Seguimos pelo PR11.

Sem perder de vista o manto de água da barragem, encaixada numa imensidão de verde, caminhamos por trilhos de terra batida, picados por agulhas de sol que furavam as densas copas de carvalhos, amieiros e choupos.

Sem perder de vista o manto de água da barragem, encaixada numa imensidão de verde, caminhamos por trilhos de terra batida, picados por agulhas de sol que furavam as densas copas de carvalhos, amieiros e choupos. Á medida que fomos avançando, fomos ficando cada vez mais desabrigados, passando mais por povoações do que pela vegetação com ares de bosque que compunha o início do percurso. Volta e meia éramos seguidos por um ou outro cachorro a que Ester não conferia qualquer atenção e chegamos, de novo, à aldeia. Sem rede.

Ainda fomos explorar o centro de Fafe e regressamos a casa e aos nossos telemóveis com rede móvel e à necessidade das tarefas domésticas, a contar os dias para mais um fim-de-semana que nos salve das rotinas claustrofóbicas e dos becos sem saída em que transformamos as nossas vidas. E quem sabe, não voltamos à Queimadela, à Aldeia do Pontido, sem rede.

Ana