{"id":668,"date":"2019-10-20T17:02:33","date_gmt":"2019-10-20T17:02:33","guid":{"rendered":"http:\/\/myrun.pt\/?p=668"},"modified":"2020-07-01T23:18:05","modified_gmt":"2020-07-01T23:18:05","slug":"joker-ou-as-quatro-licoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/myrun.pt\/en\/2019\/10\/20\/joker-ou-as-quatro-licoes\/","title":{"rendered":"Joker ou as quatro li\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Fui, finalmente, ver o \u201cJoker\u201d, o filme que incendeia as discuss\u00f5es publicas do momento e que, alegadamente, tr\u00e1s para as redes sociais a discuss\u00e3o sobre a doen\u00e7a mental. Como qualquer outra discuss\u00e3o da moda, este tema j\u00e1 arrancou publica\u00e7\u00f5es complacentes e caridosas de alegados e efetivos portadores de doen\u00e7as do foro psiqui\u00e1trico que se mostram profundamente solid\u00e1rios com as v\u00edtimas de doen\u00e7as mentais. Ora eu adoraria mostrar a mesma condescend\u00eancia. Por\u00e9m, at\u00e9 hoje, nunca me foi diagnosticada qualquer patologia do foro psiqui\u00e1trico, ali\u00e1s, raras vezes me foi diagnosticada qualquer doen\u00e7a. Felizmente sou muito saud\u00e1vel e, at\u00e9 ver, aguento tudo. Admito, contudo, que este tema me afeta, em particular, por me ser pr\u00f3ximo. Na verdade, s\u00f3 ontem fui ver o Joker porque todos os dias tenho ido a um Hospital Psiqui\u00e1trico, em visita e ainda n\u00e3o tinha tido possibilidade de ir ao cinema, desde que o filme estreou. N\u00e3o gostei, nem deixei de gostar.<strong> Muito mais do que versar sobre a doen\u00e7a mental, penso que o filme metaforiza a ascens\u00e3o ao poder de um esquizofr\u00e9nico, a glorifica\u00e7\u00e3o e a idolatria por um individuo com dist\u00farbios mentais. O retrato, de resto, do atual enquadramento pol\u00edtico, em que lideres improv\u00e1veis fazem as prefer\u00eancias de um eleitorado exausto de corrup\u00e7\u00e3o, xenofobia, preconceito, sacrif\u00edcio que vota em candidatos &#8220;outsider&#8221;, do contra, em busca de mudan\u00e7as, e as transforma\u00e7\u00f5es sociais. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p> Qualquer semelhan\u00e7a entre o filme e o Hospital Psiqui\u00e1trico que tenho visitado, s\u00f3 mesmo a bondade e a resist\u00eancia de alguns profissionais num sistema que enclausura os doentes psiqui\u00e1tricos e n\u00e3o os trata, n\u00e3o cura, n\u00e3o recupera, dedicando-se essencialmente a mant\u00ea-los asseados e alimentados.  <\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando l\u00e1 vou (e n\u00e3o est\u00e1 a chover) \u00e9 frequente ouvir alguns pacientes gritarem atr\u00e1s da veda\u00e7\u00e3o, para mim e outros visitantes \u201c<em>malucos<\/em>\u201d! E eu penso: temos filhos que entregamos aos funcion\u00e1rios de infant\u00e1rios para criar, de Segunda a Sexta, para podermos trabalhar 11 e 12 horas por dia e ganharmos dinheiro para pagar os infant\u00e1rios e as outras atividades em que os enfiamos; temos filhos que aos fins-de-semana entregamos aos av\u00f3s para criar para podermos viajar e descansar das semanas extenuantes de trabalho ou para fazer provas de corrida, triatlo, escalada, btt ou qualquer outra que propicie boas fotografias conquistadoras de profundos elogios, nas redes sociais; queixamos das intemp\u00e9ries (nos meses tipicamente de chuva) mas, quando est\u00e1 sol, torramos horas em filas para shoppings, garantimos aos nossos amigos que podem contar connosco sempre que precisarem mas, quando nos ligam, estamos sempre muit\u00edssimos ocupados com alguma tarefa inadi\u00e1vel; terminamos casamentos com ano e meio porque o relacionamento se torna mon\u00f3tono e previs\u00edvel mas ficamos revoltadissimos se a nossa entidade patronal n\u00e3o renova o contrato ao fim de dois e concluo: \u201cE n\u00e3o \u00e9 que tens raz\u00e3o? N\u00f3s \u00e9 que somos os malucos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, como n\u00e3o tenho nem autoridade nem conhecimento suficiente para fazer ju\u00edzos de valor, somente pretendo partilhar quatro li\u00e7\u00f5es que tenho tentado aprender com as pessoas que conhe\u00e7o que sobrem de patologias do foro psiqui\u00e1trico:<\/p>\n\n\n\n<p> <strong>1.\u00ba N\u00e3o guardar rancor. <\/strong>Penso que nunca fui rancorosa mas admito que tenho muita dificuldade em aceitar determinadas escolhas que fiz (mais concretamente que n\u00e3o fiz) e tenho procurado motivos e culpados para os quais atirar a responsabilidade dessas tomadas de decis\u00e3o. E \u00e9 b\u00e1rbaro assumir que a \u00fanica culpada sou (ou fui) eu. Quem me conhece sabe que sou (ou era) impulsiva, impetuosa, precipitada. Ainda hoje, admito, tenho momentos de c\u00f3lera, sobretudo no transito (deem-me tempo). Mas o conv\u00edvio com a pessoa que tenho visitado tem-me tornado mais tolerante, prudente, paciente, comedida.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> Conviver com algu\u00e9m que sofre deste tipo de patologia \u00e9 como viver no fio da navalha. A pessoa pode estar perfeitamente calma e, no minuto a seguir, sucumbir a um profundo estado de ang\u00fastia e afli\u00e7\u00e3o, ou a uma explos\u00e3o de ansiedade. Esta inconst\u00e2ncia obriga-nos a pesar as palavras, a refletir antes de atuar. E a ponderar sobre as nossas escolhas. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E hoje, dou por mim, menos temperamental e muito mais segura das minhas escolhas. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.\u00ba Viver com calma. <\/strong>A cultura do eu em que crescemos, faz-nos sentir seres de direitos. N\u00e3o temos obriga\u00e7\u00f5es. S\u00f3 direitos e direito a tudo. Queremos tudo e queremos j\u00e1. N\u00e3o temos paci\u00eancia, n\u00e3o sabemos esperar e raramente estamos satisfeitos. N\u00e3o convivemos com os nossos pais e av\u00f3s porque  n\u00e3o sabem a diferen\u00e7a entre um i-Phone e um android e n\u00e3o t\u00eam mbway e n\u00f3s n\u00e3o temos tempo a perder com explica\u00e7\u00f5es porque o nosso tempo \u00e9 precioso e j\u00e1 nascemos ensinados. Depois morrem e compreendemos que nos fazem muito mais falta do que n\u00f3s a eles. Queremos sal\u00e1rios dignos que nos permitam f\u00e9rias em lugares paradis\u00edacos &nbsp;e col\u00e9gios para os filhos e equipamento para irmos para a neve amontoar fotografias para exigir aos colegas de trabalho. Mas tem que ser trabalho por conta de outrem que isso de criar emprego implica muita responsabilidade e tem que ser j\u00e1. Ou ascendemos a lugares de chefia em seis meses ou vamos procurar ofertas na concorr\u00eancia. N\u00e3o queremos assumir compromissos nem responsabilidades porque precisamos de tempo para n\u00f3s e, por esse motivo, Segunda vamos ao gin\u00e1sio, Ter\u00e7a vamos correr, Quarta \u00e9 o dia de ir ao cinema, Quinta vamos ao pilates, Sexta vamos correr outra vez, S\u00e1bado vamos sair e Domingo temos alguma atividade de qualquer coisa e, de repente, somos escravos de compromissos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> Ora, quem sofre de doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas n\u00e3o pode ter agenda.  <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Perdoem-me amigos, se vos convido para jantar ou para ir \u00e0 praia uma hora antes de sair de casa. Eu sei que todos voc\u00eas t\u00eam agendas sobrecarregadas e programadas com anteced\u00eancia. Eu tamb\u00e9m era assim ou tamb\u00e9m seria assim. Mas n\u00e3o posso. Porque tudo pode estar tudo bem ao almo\u00e7o e o jantar ser um tumulto. Por isso habituei-me a viver com calma. Uma hora de cada vez. Um minuto de cada vez e, desta necessidade, resultou uma das minhas maiores conquistas: conseguir manter o foco e a calma, em contexto de imprevisto. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.\u00ba Ser tolerante.<\/strong> Nos Hospitais Psiqui\u00e1tricos encontramos todo o tipo de pessoas. De resto, como em qualquer lugar. A diferen\u00e7a \u00e9 que ali, as pessoas s\u00e3o o que s\u00e3o. Sem subterf\u00fagios. E como n\u00e3o podemos saber se um dia vamos ser n\u00f3s atr\u00e1s daquelas grades ou naquela cama de hospital, habituamo-nos a conviver com as mais diversas formas de ser e a n\u00e3o fazer ju\u00edzos de valor nem fabricar etiquetas. Afinal, tantas vezes, os malucos somos n\u00f3s. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.\u00ba Aceitar-nos.<\/strong> Vivemos t\u00e3o preocupados com o que outros pensam de n\u00f3s. Com a imagem que transmitimos. Pois muitas das pessoas que acabam internadas em Hospitais Psiqui\u00e1tricos s\u00e3o pessoas humanas, inteligentes, sagazes, combativas, trabalhadoras, generosas, criativas que tinham tudo para se enquadrar num qualquer estere\u00f3tipo de pessoa bem-sucedida, mas que nunca se sentiram suficientemente boas, suficientemente \u00e0 altura das expectativas. N\u00e3o das suas, mas das dos outros. E neste aspeto, admito, tenho muito para melhorar. Duas das frases mais marcantes do filme s\u00e3o \u201c<em>A pior parte de ter uma doen\u00e7a mental \u00e9 que as pessoas esperam que voc\u00ea se comporte como se n\u00e3o tivesse.\u201d e  <\/em>\u201c<em>Durante toda minha vida, eu nem sabia se eu realmente existia. Mas eu existo. E as pessoas est\u00e3o a come\u00e7ar a perceber.\u201d<\/em> Ora eu existo, tal como sou e tenho a obriga\u00e7\u00e3o e a vontade de ser melhor. Por\u00e9m, para j\u00e1, por favor n\u00e3o esperem que me comporte de forma diferente. &nbsp;Bom Domingo!<\/p>\n\n\n\n<p>Ana<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui, finalmente, ver o \u201cJoker\u201d, o filme que incendeia as discuss\u00f5es publicas do momento e que, alegadamente, tr\u00e1s para as&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/myrun.pt\/en\/2019\/10\/20\/joker-ou-as-quatro-licoes\/\">Ler o Post<span class=\"screen-reader-text\">Joker ou as quatro li\u00e7\u00f5es<\/span><\/a><\/div>","protected":false},"author":2,"featured_media":697,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"iawp_total_views":4,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-668","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lazer","excerpt","zoom","full-without-featured","even","excerpt-0"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=668"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":698,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/668\/revisions\/698"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/697"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}