{"id":48,"date":"2019-02-03T21:26:38","date_gmt":"2019-02-03T21:26:38","guid":{"rendered":"http:\/\/myrun.pt\/?p=48"},"modified":"2019-06-12T21:12:49","modified_gmt":"2019-06-12T21:12:49","slug":"quatro-licoes-que-a-minha-cadela-me-poderia-ensinar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/myrun.pt\/en\/2019\/02\/03\/quatro-licoes-que-a-minha-cadela-me-poderia-ensinar\/","title":{"rendered":"Quatro li\u00e7\u00f5es que a minha cadela me poderia ensinar."},"content":{"rendered":"<p>Este fim-de-semana despistamo-nos. A menos de 10 Km do\nalojamento fomos surpreendidos por uma queda de neve que nos atacou, furiosa.\nAvan\u00e7amos muito devagar e s\u00f3 faltavam 2 Km para chegarmos ao destino quando,\nnuma curva a descer, nos deparamos com o alcatr\u00e3o forrado de gelo e n\u00e3o pudemos\nsen\u00e3o agarrar-nos e esperar que o carro deslizasse, sa\u00edsse da estrada e\ndescesse pela berma at\u00e9 ficar preso entre pedregulhos. Mal paramos, a primeira\npergunta que o meu marido me fez foi se eu me tinha magoado. N\u00e3o lhe respondi\nque n\u00e3o tinha nem um arranh\u00e3o, nem lhe perguntei o mesmo. A primeira pergunta\nque fiz foi se o seguro cobria aquele estrago. N\u00e3o sei quando \u00e9 que me tornei\numa m\u00e1quina de calcular, mas enquanto desc\u00edamos desamparados pela berma, n\u00e3o\npensei que poderia morrer ali, que me poderia magoar, ou no desgosto que iria\ncausar a quem me estima. N\u00e3o vi imagens de momentos marcantes, n\u00e3o senti\nsaudades. A cada pancada que o carro dava, eu somava mais uma despesa e tudo em\nque pensava era nos sonhos que j\u00e1 n\u00e3o iria poder concretizar, outra vez. Nos\nprojetos de que teria que abdicar, outra vez. No banco de tr\u00e1s, a tremer\ncontrolada e quieta, a minha cadela Ester olhava para n\u00f3s como que a perguntar:\n&#8220;J\u00e1 chegamos?&#8221;. Olhei para a cadela e perguntei-lhe se me ensinava a\nser assim:<\/p>\n\n\n\n<p>1\u00ba. Qualquer que seja a adversidade, a minha cadela\naproveita o mais poss\u00edvel cada momento. Se n\u00e3o pode ir \u00e0 rua 1 hora, vai 15\nminutos. Se n\u00e3o pode ir \u00e0 praia, d\u00e1 a volta ao quarteir\u00e3o. Se n\u00e3o lhe d\u00e3o\nbiscoito, devora a ra\u00e7\u00e3o que lhe deixam. Se n\u00e3o tem um brinquedo novo, brinca\ncom uma meia suja, mas brinca como se a meia fosse um boneco extraordin\u00e1rio,\ncome a ra\u00e7\u00e3o como se fosse um petisco \u00fanico e fareja cada metro quadrado da\nareia, do jardim ou do tapete da padaria \u00e0 porta da qual passa todos os dias\ncomo se estivesse a descobrir um mundo novo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Ester (e penso que qualquer c\u00e3o) adapta-se com uma\nfacilidade not\u00e1vel. J\u00e1 viveu na rua, e num T2 na Foz. J\u00e1 passou f\u00e9rias no Douro\ne no Alentejo. J\u00e1 passou dias inteiros em casa e dias quase todos na rua e\nnunca se queixou, n\u00e3o se tornou desobediente nem mal-educada. Tanto abana a\ncauda, fren\u00e9tica quando vai \u00e0 rua 15 minutos como quando regressa de uma\ncaminhada de 3 ou 4 horas na montanha e regressa sempre a casa (seja maior ou\nmais pequena, na Foz ou na Afurada) como se estivesse a chegar ao lugar mais\nacolhedor e confort\u00e1vel do mundo!<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto eu passei a noite acordada a refletir no que me ia\ncustar o arranjo do carro, a Ester dormiu tranquilamente, no meio dos donos.\nN\u00e3o se mexeu toda a noite. Enquanto eu passei todo o fim-de-semana na ang\u00fastia\ndo regresso, a Ester brincou horas na neve, correu, esfregou-se e farejou cada\npalmo do caminho, como se a cada passo tivesse descoberto um tesouro.<\/p>\n\n\n\n<p>2\u00ba. N\u00e3o se distrai do objetivo e tem uma paci\u00eancia inesgot\u00e1vel.\nA Ester tem essencialmente tr\u00eas preocupa\u00e7\u00f5es: comer, beber e ir \u00e0 rua. Quando\nvai ao veterin\u00e1rio, a Ester n\u00e3o sabe se vai tomar banho, fazer um exame ou\napanhar uma vacina. N\u00e3o sabe se \u00e9 grave ou de rotina nem se incomoda. A Ester\ns\u00f3 sabe que qualquer que seja o resultado, se colaborar com a veterin\u00e1ria,\nd\u00e3o-lhe um biscoito, se sentar e der a pata \u00e0s enfermeiras tem mais um biscoito\ne se for obediente, os donos d\u00e3o-lhe mais um biscoito. Portanto, seja para a\ntosquia ou para uma opera\u00e7\u00e3o, a Ester coopera e mostra-se d\u00f3cil porque aquilo\nque n\u00e3o pode controlar, n\u00e3o a preocupa. O seu objetivo \u00e9 comer biscoitos e\nmantem-se sempre focada no que tem que fazer para o conseguir. \u00c1 noite, quando\nquer \u00e1gua e n\u00e3o h\u00e1, a Ester n\u00e3o ladra nem abre a torneira do bid\u00e9 e molha tudo.\nSobe para a cama dos donos e rosna baixinho. Por vezes \u00e9 o que basta para o\ndono acordar. Quando n\u00e3o consegue acordar o dono, descobre a dona e tira-lhe as\nmeias dos p\u00e9s, com os dentes. Em 2 ou 3 minutos j\u00e1 est\u00e1 a saciada! Conhecedora da\nrotina do dia-a-dia, a Ester sabe que de manh\u00e3 os donos a levam \u00e0 rua antes de\nsair (para trabalhar) e ao fim do dia, quando regressam (do trabalho). E todos\nos dias acorda com a mesma pregui\u00e7a e aguarda com a mesma paci\u00eancia que lhe\nponham a trela e a coleira e a levem l\u00e1 fora. Seja dia, ou seja, noite, demore\nmais ou menos, a Ester n\u00e3o ladra, n\u00e3o estraga, n\u00e3o morde. Quer ir \u00e0 rua e\naguarda incans\u00e1vel, que a levem, sem reclamar.<\/p>\n\n\n\n<p>3\u00ba. N\u00e3o discrimina<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme j\u00e1 referi, a Ester tem fundamentalmente tr\u00eas preocupa\u00e7\u00f5es na vida. Uma das quais \u00e9 comer&#8230;biscoitos. Desta forma, trata qualquer ser humano com a mesma educa\u00e7\u00e3o e interesse: conseguir um biscoito ou uma qualquer por\u00e7\u00e3o de comida. A Ester n\u00e3o olha a estratos sociais ou op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. N\u00e3o v\u00ea ra\u00e7as, cren\u00e7as nem opini\u00f5es. Para a Ester tanto faz serem mais novos ou menos, pior ou melhor vestidos com mais ou menos sa\u00fade. A Ester n\u00e3o olha, fareja. E se tem biscoito, \u00e9 a melhor pessoa do mundo, seja quem for. E os meus defeitos? A Ester conhece todos (ou quase) e ainda assim, estima-me, cuida, protege \u00e9 leal e grata. Para a Ester n\u00e3o \u00e9 indiferente se eu ganho mais ou menos, se sou combativa, obstinada ou conformada, se sou comunicativa ou introvertida. Tenho o compromisso de n\u00e3o deixar que lhe falte o essencial, cumpro-o, dedico-lhe tempo e aten\u00e7\u00e3o e isso basta-lhe. A Ester n\u00e3o complica.<\/p>\n\n\n\n<p>4\u00ba \u00c9 humilde e incondicionalmente dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>No trabalho, como na vida pessoal, d\u00e3o instru\u00e7\u00f5es que n\u00e3o compreendo, dirigem-me palavras que me entristecem, tomam decis\u00f5es que me angustiam. E, como \u00e9 obvio, os meus comportamentos s\u00e3o suscet\u00edveis de causar nos outros, as mesmas impress\u00f5es. E, portanto, procuro ser tolerante, relativizar, relevar. Aceitar. Mas muitas vezes n\u00e3o esque\u00e7o. Posso acatar uma ordem que n\u00e3o compreendo, retribuir com compaix\u00e3o a uma ofensa, ouvir com benevol\u00eancia um desaforo. Mas o grito que me atiraram, o ato que me ofendeu, a ordem que n\u00e3o me foi explicada, o percal\u00e7o com que me deparei, tudo isto m\u00f3i. Marca. Fica guardado. E, por vezes, por mais que tente relevar e ser grata por tudo o que tenho e retirar algo positivo de tudo o que vivo, chego a casa desgastada e sem disponibilidade. Levo a cadela \u00e0 rua como que a cumprir penit\u00eancia. Dou-lhe ra\u00e7\u00e3o e viro-lhe costas. E ainda ralho se me pede aten\u00e7\u00e3o. Os c\u00e3es t\u00eam essa incr\u00edvel falta de capacidade de armazenamento. Sentem, no momento e esquecem. N\u00e3o guardam. N\u00e3o acumulam e est\u00e3o sempre dispon\u00edveis. A Ester odeia tomar banho e n\u00e3o compreende por qual motivo eu a fa\u00e7o passar por tamanho tormento. Mas n\u00e3o discute. Vai para a banheira, obediente, espera im\u00f3vel que eu feche a torneira e a embrulhe com a toalha, corre a casa todo durante cinco minutos, fica amuada mais cinco e est\u00e1 pronta para outra. N\u00e3o fica a remoer nas minhas raz\u00f5es para lhe dar banho. Ou para a levar ao veterin\u00e1rio. Ou para \u00e0s vezes negar um biscoito. Tenho uma amiga que me diz muitas vezes: &#8220;Ana, tu n\u00e3o sabes o tamanho da cruz que os outros carregam&#8221;. \u00c1s vezes apetece-me responder-lhe: &#8220;Com a cruz dos outros posso bem&#8221;. A Ester n\u00e3o tem cruz. \u00c9 incrivelmente livre de culpas e arrependimentos. Isenta de qualquer rancor. E est\u00e1 sempre dispon\u00edvel. E a pensar nestas li\u00e7\u00f5es, desliguei, por minutos, a m\u00e1quina de calcular. Amanh\u00e3 \u00e9 outro dia e vou procurar enfrent\u00e1-lo com a mesma atitude da Ester quando vai ao veterin\u00e1rio. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAIAAAAAAAP\/\/\/yH5BAEAAAAALAAAAAABAAEAAAIBRAA7\" data-src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ester_trailrunning.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-368 lazyload\"\/><noscript><img decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"562\" src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ester_trailrunning.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-368 lazyload\" srcset=\"https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ester_trailrunning.jpg 750w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/ester_trailrunning-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/noscript><figcaption>Eu sou uma f\u00e3 incondicional do Trail&#8230; e nunca abandono os meus donos.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A todos, uma boa noite!<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este fim-de-semana despistamo-nos. A menos de 10 Km do alojamento fomos surpreendidos por uma queda de neve que nos atacou,&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/myrun.pt\/en\/2019\/02\/03\/quatro-licoes-que-a-minha-cadela-me-poderia-ensinar\/\">Ler o Post<span class=\"screen-reader-text\">Quatro li\u00e7\u00f5es que a minha cadela me poderia ensinar.<\/span><\/a><\/div>","protected":false},"author":2,"featured_media":57,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"iawp_total_views":4,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-48","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lazer","excerpt","zoom","full-without-featured","even","excerpt-0"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":375,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions\/375"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}