{"id":183,"date":"2019-05-27T07:03:19","date_gmt":"2019-05-27T07:03:19","guid":{"rendered":"http:\/\/myrun.pt\/?p=183"},"modified":"2019-06-11T19:34:16","modified_gmt":"2019-06-11T19:34:16","slug":"quebra-barreiras-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/myrun.pt\/en\/2019\/05\/27\/quebra-barreiras-3\/","title":{"rendered":"Quebra-Barreiras"},"content":{"rendered":"<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> A prova come\u00e7ava a subir, descia, e voltava a subir, chegados ao Km 3 j\u00e1 carreg\u00e1vamos, nas pernas, v\u00e1rios lan\u00e7os de escadas de troncos de madeira e musgo. A vista, por\u00e9m, compensou: infind\u00e1veis socalcos em v\u00e1rios tons de verde estendidos at\u00e9 ao mar, polvilhados de hort\u00eancias e az\u00e1leas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAIAAAAAAAP\/\/\/yH5BAEAAAAALAAAAAABAAEAAAIBRAA7\" data-src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_133927-3-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-184 lazyload\" \/><noscript><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_133927-3-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-184 lazyload\" srcset=\"https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_133927-3-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_133927-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_133927-3-768x432.jpg 768w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_133927-3.jpg 1723w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/noscript><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>7:00 horas da manh\u00e3. N\u00e3o havia rasgos de rosa nem pinceladas laranja no horizonte. S\u00f3 uma luz, sem brilho, que destapava tenuemente, um pouco do Pico. Lentamente, algumas dezenas de corta-ventos coloridos iam surgindo na marina e soltando palavras de diferentes idiomas, que se fundiam no ar. Entramos na camionete que nos levaria \u00e0 partida. Os meus olhos brilhavam na \u00e2nsia de descobrir o Faial que me haviam descrito. Por\u00e9m, tudo o que via da janela era um manto branco leitoso. Encostei-me ao Paulo e adormeci at\u00e9 chegarmos ao sal\u00e3o da Junta da Freguesia de Ribeirinha, onde nos aguardava uma guitarra de 12 cordas embalada por caf\u00e9 acabado de fazer com fatias de p\u00e3o sovado fresqu\u00edssimo. Terap\u00eautico! A prova come\u00e7ava a subir, descia, e voltava a subir, subir, chegados ao Km 3 j\u00e1 carreg\u00e1vamos, nas pernas, v\u00e1rios lan\u00e7os de escadas de troncos de madeira e musgo. A vista, por\u00e9m, compensou: infind\u00e1veis socalcos em v\u00e1rios tons de verde estendidos at\u00e9 ao mar, polvilhados de hort\u00eancias e az\u00e1leas. Durou pouco: o nevoeiro n\u00e3o deu tr\u00e9guas. Da\u00ed at\u00e9 ao Km 5 o trilho continuava a subir, por escadas de ra\u00edzes de \u00e1rvores com copas frondosas. N\u00e3o obstante a sombra, o vento, o nevoeiro, jorravam gotas rechonchudas do meu pesco\u00e7o e desciam pelas costas abaixo. A minha cara era uma salsicha na grelha, a mochila cozia-me a pele das costas e o meu cora\u00e7\u00e3o disparava mais que uma pistola de paintball. Quando cheguei ao Km 5, a uma estrada de cascalho cor de tinto em que finalmente poderia correr, j\u00e1 tinha as pernas mais mo\u00eddas do que gr\u00e3os de caf\u00e9 e n\u00e3o via um palmo \u00e0 minha frente. Segui atr\u00e1s de uma camelbak<a href=\"http:\/\/www.camelback.com\"> <\/a>amarela. Era da Cristina, que fazia a prova com o Carlos: nunca os tinha visto antes. A Cristina nunca tinha feito nenhuma prova com mais de 25 Km, nem com tanto desn\u00edvel, nem subido a tamanha altitude. Ia, portanto, quebrar v\u00e1rias barreiras naquele dia. Seguimos juntos at\u00e9 ao abastecimento do km 12.7, no Parque do Cabou\u00e7o. \u00c1 minha espera, estava o Paulo e uma equipa de volunt\u00e1rios incans\u00e1veis que tudo fez para nos aliviar as dores e desconforto. Seguimos juntos. Subimos pelo per\u00edmetro da Caldeira e, chegados l\u00e1 em cima, continuamos a subir, at\u00e9 aos 1027 metros de altitude. Continuava na companhia do Carlos e da Cristina \u201cquebra-barreiras\u201d. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00c0 nossa volta impunha-se um branco espesso que n\u00e3o permitia vislumbrar mais do que reflectores. O vento cortava como facas e empurrava como um cami\u00e3o. Nos escassos momentos em que consegu\u00edamos ver o trilho, dava-nos a impress\u00e3o de que chegava ao c\u00e9u.  <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAIAAAAAAAP\/\/\/yH5BAEAAAAALAAAAAABAAEAAAIBRAA7\" data-src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_124944-3-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-185 lazyload\" \/><noscript><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_124944-3-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-185 lazyload\" srcset=\"https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_124944-3-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_124944-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_124944-3-768x432.jpg 768w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_124944-3.jpg 1636w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/noscript><\/figure>\n\n\n\n<p> Passou o Pedro S\u00e1 (a fazer os 118 Km). Acompanhou-nos um pouco.  A<strong>o Km 20, finalmente fez-se luz e vi a Caldeira! Majestosa, imponente, a Caldeira \u00e9 uma cratera colossal, coberta de verde e com umas pequenas, lagoas no fundo, de \u00e1gua verde azulada. No per\u00edmetro, o trilho entranha-se por entre arbustos coloridos com urzes e mios\u00f3tis. Lind\u00edssimo. <\/strong>  Chegamos ao Km 24: numa tenda muito bem montada, fomos tratados e acarinhados. Abastecemos, recuperamos. A Cristina estava quase a quebrar a barreira dos 25 Km. Entramos numa levada ei-lo, finalmente, o Pico!: monumental, sob uma imensid\u00e3o de azul petr\u00f3leo e um extenso painel de verde e flocos de algod\u00e3o. At\u00e9 ao Km 31 o percurso manteve-se sempre pela levada, com canais, tanques e pontes de troncos. Passou o Paulo Gomes, a 14 Km do final da prova de 118 Km que estava a fazer, perfeitamente tranquilo e bem-disposto. Do Km 31 ao 35 Km, pasme-se, o trilho continuava a subir. N\u00e3o consegui acompanhar o Carlos e a Cristina, que havia quebrado tr\u00eas barreiras, e encontrei eu uma: daquelas que n\u00e3o se v\u00ea, mas se sente como uma co\u00e7a. O nevoeiro voltou a instalar-se, o vento apoderou-se do caminho, os m\u00fasculos das minhas pernas estavam mais amassados do que o p\u00e3o de massa sovada do pequeno almo\u00e7o, o meu cora\u00e7\u00e3o saltava mais do que o trepidar de uma picareta, do\u00edam-me as costelas. Pensava para mim pr\u00f3pria: \u201c<em>\u00c9 s\u00f3 um passo atr\u00e1s do outro<\/em>\u201d. Contudo, a cada passo, ficava mais lenta. Pensei, muito sinceramente, ficar no abastecimento dos 35 Km. Mas como? O meu marido estava a minha espera, a minha fam\u00edlia a aguardar \u00e0 dist\u00e2ncia, as minhas colegas de trabalho n\u00e3o s\u00f3 ficaram a fazer o meu trabalho como ainda me bombardeavam com mensagens de incentivo e a Cristina! Como \u00e9 que eu poderia desistir, se a Cristina estava a aguentar? Partimos, novamente juntos. N\u00e3o por muito tempo. Como poder\u00e3o adivinhar, o trilho continuava a subir. Atr\u00e1s de cada lan\u00e7o de escadas de tronco e ra\u00edzes, vinha outro e outro e ao Km 39 Km sentei-me. N\u00e3o conseguia nem ficar de p\u00e9, quanto mais subir degraus. Tocou o telefone. Era a Cl\u00e1udia, que, n\u00e3o sei explicar como, sabe sempre quando preciso que me ligue e exatamente o que dizer. O Paulo esperava h\u00e1 horas. Cerrei os dentes, contive as l\u00e1grimas, gritei (no sentido literal) e arrastei-me at\u00e9 ao final da subida. A cerca de 2 Km do fim, esmagador: o Vulc\u00e3o dos Capelinhos e a meta ao fundo\u2026de uma descida. N\u00e3o foi uma experi\u00eancia transformadora. N\u00e3o terminei a prova renovada, com diferentes perspetivas, com mais f\u00e9 ou motiva\u00e7\u00e3o. Mas foi marcante, desafiante e permitiu quebrar barreiras. Pensava para mim pr\u00f3pria: \u201c<em>\u00c9 s\u00f3 um passo atr\u00e1s do outro<\/em>\u201d. Contudo, a cada passo, ficava mais lenta. Pensei, muito sinceramente, ficar no abastecimento dos 35 Km. Mas como? O meu marido estava a minha espera, a minha fam\u00edlia a aguardar \u00e0 dist\u00e2ncia, as minhas colegas de trabalho n\u00e3o s\u00f3 ficaram a fazer o meu trabalho como ainda me bombardeavam com mensagens de incentivo e a Cristina! Como \u00e9 que eu poderia desistir, se a Cristina estava a aguentar? Partimos, novamente juntos. N\u00e3o por muito tempo. Como poder\u00e3o adivinhar, o trilho continuava a subir. Atr\u00e1s de cada lan\u00e7o de escadas de tronco e ra\u00edzes, vinha outro e outro e ao Km 39 Km sentei-me. N\u00e3o conseguia nem ficar de p\u00e9, quanto mais subir degraus. Tocou o telefone. Era a Cl\u00e1udia, que, n\u00e3o sei explicar como, sabe sempre quando preciso que me ligue e exatamente o que dizer. O Paulo esperava h\u00e1 horas. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Cerrei os dentes, contive as l\u00e1grimas, gritei (no sentido literal) e arrastei-me at\u00e9 ao final da subida. A cerca de 2 Km do fim, esmagador: o Vulc\u00e3o dos Capelinhos e a meta ao fundo\u2026 de uma descida. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi uma experi\u00eancia transformadora. N\u00e3o terminei a prova renovada, com diferentes perspetivas, com mais f\u00e9 ou motiva\u00e7\u00e3o. Mas foi marcante, desafiante e permitiu quebrar barreiras. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAIAAAAAAAP\/\/\/yH5BAEAAAAALAAAAAABAAEAAAIBRAA7\" data-src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_115605-4-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-186 lazyload\" \/><noscript><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_115605-4-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-186 lazyload\" srcset=\"https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_115605-4-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_115605-4-300x169.jpg 300w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_115605-4-768x432.jpg 768w, https:\/\/myrun.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/20190525_115605-4.jpg 1636w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/noscript><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ana<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prova come\u00e7ava a subir, descia, e voltava a subir, chegados ao Km 3 j\u00e1 carreg\u00e1vamos, nas pernas, v\u00e1rios lan\u00e7os&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/myrun.pt\/en\/2019\/05\/27\/quebra-barreiras-3\/\">Ler o Post<span class=\"screen-reader-text\">Quebra-Barreiras<\/span><\/a><\/div>","protected":false},"author":2,"featured_media":184,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"iawp_total_views":11,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12,13,10,8,9,4,14,11,2],"class_list":["post-183","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-provas-de-trail-running-e-de-corrida-em-pista","tag-atrp","tag-azores","tag-azorestrail","tag-faial","tag-horta","tag-myrun","tag-portugal","tag-running","tag-trail","excerpt","zoom","full-without-featured","even","excerpt-0"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=183"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":359,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183\/revisions\/359"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/myrun.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}